Entrei num café simpático dia desses. Cortinas rosas. Cadeiras em tons pastéis. Um burburinho meio incessante sobre assuntos diversos. Ouvi algo sobre uma briga de herança de família. Duas mulheres conversavam sobre os desafetos do trabalho. Uma senhora lia um livro sem intenção alguma de disfarçar a capa, tão erótica quanto assertiva.
Pedi um café expresso duplo. Tinha sido uma manhã longa, dessas feitas de reuniões e amenidades disfarçadas de decisões importantes. Logo uma moça de avental e lenço na cabeça veio com um sorriso treinado, uma bandeja e meu café.
Notei que havia um pequeno brigadeiro ao lado. O melhor que já comi. Não sei se havia técnica elaborada, se foi feito numa panela de fundo grosso ou se usava algum chocolate importado cujo nome as pessoas gostam de pronunciar errado. Só sei que era o melhor. E isso, por si só, já me pareceu estranho.
Pedi outro café unicamente por causa do brigadeiro. E ali comecei a pensar em como algumas coisas funcionam sem explicação razoável. A física tenta. A química chega perto. A neurociência fala em memória afetiva, dopamina, associações inconscientes. Mas nada disso explica direito por que aquele doce, naquele dia, parecia tão definitivo.
Talvez seja isso que a gente chama de acaso bem colocado. Um encontro improvável entre expectativa baixa e resultado alto. Um erro estatístico que dá certo. Como certas pessoas que entram na nossa vida sem aviso e, por algum tempo, fazem tudo parecer mais simples do que realmente é.
Olhei em volta de novo. A briga da herança continuava. As queixas do trabalho também. A senhora seguia firme no livro. O mundo mantinha sua regularidade caótica, enquanto eu me ocupava de um brigadeiro e uma pilha de papéis ao meu lado.
Vez ou outra surgia um silêncio breve, marcado por uma falsa sincronia de pessoas diferentes bebendo ao mesmo tempo. A atendente seguia atenta aos possíveis novos pedidos.
Olhei meu café e lembrei que, quando mais nova, nunca gostei de café forte. Agora bebia expresso sem açúcar. Também não gostava de água com gás ou de comidas agridoce. Tudo mudou.
Ainda falho em tantas coisas que simplesmente não sei explicar. O amadurecimento me veio em detalhes que talvez importem pouco, como o próprio paladar. Mas ainda insisto em construir algo grande demais toda vez que sinto algo brevemente parecido com o amor. Um Burj Khalifa sem fundação. Quando desaba, se forma um desastre sem nome que ninguém, nem mesmo o destino, tem coragem de assinar. O destino sempre tão discreto.
Ninguém explica. Em algum ponto parece teimosia. Mas aí lembro que Freud já dizia que as neuroses podem ser tão perigosas quanto doenças que a gente leva a sério. O número de pessoas doentes só aumentou. Isso me fez pensar que o mundo ignora avisos o tempo todo. Aparentemente, eu também ignoro sinais tão grandes quanto a abóbada de alguma basílica italiana.
Talvez ninguém explique. E talvez esse seja um acordo honesto: aceitar que nem tudo precisa ser entendido, algumas coisas apenas acontecem. E, quando acontecem, basta pedir outro café.
quem explica? (27/12/2025)