Rua Oca – Onde tudo reverbera

As ruas sussurram memórias

  • hiperfoco

    tem dias
    em que você não sai
    nem quando eu imploro


    fica ali
    ocupando a parte exata
    onde o pensamento cansa


    não é lembrança
    é repetição
    dessas que não ensinam nada
    só gastam


    te penso
    com a obsessão feia
    de quem revisita um erro
    sabendo que não há correção


    o mundo segue
    e isso me ofende


    as pessoas riem
    marcam horários
    fazem planos
    como se não fosse um absurdo
    continuar


    e eu aqui
    presa
    num detalhe teu
    que não serve pra nada
    mas me desmonta inteira


    não é amor
    é falha


    é a mente tentando salvar
    o que já morreu
    como quem sacode um corpo
    pra ver se ainda responde


    sei que você não volta
    e isso já nem é o pior


    o pior é perceber
    que mesmo ausente
    você ainda me ocupa
    com uma eficiência cruel


    não há saudade bonita
    há vigilância


    esse estado ridículo
    de atenção permanente
    a algo que não existe mais


    fiquei me perguntando
    se o meu pensamento esbarrava no teu
    fazendo a gente se pensar
    por acidente


    mas lembrei
    como um acaso cruel
    das voltas que você dava a mais
    pra não me ver em carne


    e entendi
    tarde demais
    que pensamento não encontra
    quem desvia o corpo


    eu jamais seria
    tua projeção espiritual


    quando você finalmente sair
    da minha cabeça
    não vai ser alívio
    vai ser luto atrasado


    porque enquanto eu te pensava
    com tanto rigor
    você
    simplesmente
    não pensava

    hiperfoco (01/2026)

  • fusível

    quando a dor se desenha feito caos
    eu escondo tristezas
    pra não faltar


    a casa aprende antes de mim
    há correntes que passam além do seguro
    e ninguém avisa
    só continuam


    é um ativo arriscado
    amar acima da própria amperagem
    fingir que o fio aguenta
    porque sempre aguentou


    o fusível não negocia
    ele cede
    antes que tudo incendeie


    eu também


    há algo sedutor
    em deixar passar demais
    os analistas conhecem bem essa história
    chamam de repetição
    de retorno ao mesmo ponto


    deixo queimar uma parte
    pra que o resto permaneça
    em funcionamento mínimo


    não é nem coragem
    é contenção de danos


    pra lembrar
    de toda descarga elétrica
    que já vivi
    em meio
    às minhas pequenas multidões


    pra lembrar
    que a luz falha primeiro
    a escuridão
    cumpre

    fusível (01/2026)

  • resíduo

    o que há de ser nós
    se não uma nota de rodapé
    que diz tanta coisa
    como poderia não dizer?
    mas ninguém ousou colocar no texto


    dos desenhos dos teus lábios
    que desmancham os meus
    em súplicas tardias
    nada ficou
    nem obra
    nem rascunho


    quão triste é pensar nisso
    depois de um dia bom
    em que ondas de calor
    flutuaram por entre nuvens de algodão


    triste é pensar nisso nos dias ruins também
    desses dias
    em que até os oásis
    não trazem água


    penso na tua voz
    dizendo coisas bonitas
    enquanto tuas mãos
    desenham tranças
    no teu cabelo negro


    e percebo
    que o que eu chamava de nós
    era só um instante
    mal apoiado no tempo


    porque enquanto ecoava em mim
    feito casa vazia
    em noite de vento
    em ti
    já era manhã


    e o que ficou
    não foi saudade
    nem lembrança


    foi isso
    esse quase
    esse resto


    resíduo

  • eco

    tem vozes que me ecoam na cabeça por meses
    as partes boas, as ruins
    e os nomes carinhosos sussurrados numa tarde de terça
    ou era quinta, não tenho certeza


    que ironia lacaniana, eu diria
    amar é dar o que não se tem a quem não quer


    isso ecoa


    os vazios de alguma partida
    preenchem mais que um silêncio brusco
    fiquei perdida algumas vezes
    como quem pega um elevador
    e fica meio perdida toda vez que a porta abre
    se perguntando se é ali que devia descer


    isso ecoa também


    já desci no andar errado uma ou duas vezes
    e fiquei esperando
    até o elevador voltar
    às vezes não volta, sabia?


    ela não sabe que ela é feita de névoa e partida
    e que ecoou em mim desde o primeiro dia
    mas a partida
    parece sempre mais alta que a chegada


    e ainda hoje
    sem correção
    de forma crua
    como quem aprende tarde demais
    que eco não responde

    ecoa.

    eco (01/2026)

  • quem explica?

    Entrei num café simpático dia desses. Cortinas rosas. Cadeiras em tons pastéis. Um burburinho meio incessante sobre assuntos diversos. Ouvi algo sobre uma briga de herança de família. Duas mulheres conversavam sobre os desafetos do trabalho. Uma senhora lia um livro sem intenção alguma de disfarçar a capa, tão erótica quanto assertiva.


    Pedi um café expresso duplo. Tinha sido uma manhã longa, dessas feitas de reuniões e amenidades disfarçadas de decisões importantes. Logo uma moça de avental e lenço na cabeça veio com um sorriso treinado, uma bandeja e meu café.


    Notei que havia um pequeno brigadeiro ao lado. O melhor que já comi. Não sei se havia técnica elaborada, se foi feito numa panela de fundo grosso ou se usava algum chocolate importado cujo nome as pessoas gostam de pronunciar errado. Só sei que era o melhor. E isso, por si só, já me pareceu estranho.


    Pedi outro café unicamente por causa do brigadeiro. E ali comecei a pensar em como algumas coisas funcionam sem explicação razoável. A física tenta. A química chega perto. A neurociência fala em memória afetiva, dopamina, associações inconscientes. Mas nada disso explica direito por que aquele doce, naquele dia, parecia tão definitivo.


    Talvez seja isso que a gente chama de acaso bem colocado. Um encontro improvável entre expectativa baixa e resultado alto. Um erro estatístico que dá certo. Como certas pessoas que entram na nossa vida sem aviso e, por algum tempo, fazem tudo parecer mais simples do que realmente é.


    Olhei em volta de novo. A briga da herança continuava. As queixas do trabalho também. A senhora seguia firme no livro. O mundo mantinha sua regularidade caótica, enquanto eu me ocupava de um brigadeiro e uma pilha de papéis ao meu lado.


    Vez ou outra surgia um silêncio breve, marcado por uma falsa sincronia de pessoas diferentes bebendo ao mesmo tempo. A atendente seguia atenta aos possíveis novos pedidos.


    Olhei meu café e lembrei que, quando mais nova, nunca gostei de café forte. Agora bebia expresso sem açúcar. Também não gostava de água com gás ou de comidas agridoce. Tudo mudou.


    Ainda falho em tantas coisas que simplesmente não sei explicar. O amadurecimento me veio em detalhes que talvez importem pouco, como o próprio paladar. Mas ainda insisto em construir algo grande demais toda vez que sinto algo brevemente parecido com o amor. Um Burj Khalifa sem fundação. Quando desaba, se forma um desastre sem nome que ninguém, nem mesmo o destino, tem coragem de assinar. O destino sempre tão discreto.


    Ninguém explica. Em algum ponto parece teimosia. Mas aí lembro que Freud já dizia que as neuroses podem ser tão perigosas quanto doenças que a gente leva a sério. O número de pessoas doentes só aumentou. Isso me fez pensar que o mundo ignora avisos o tempo todo. Aparentemente, eu também ignoro sinais tão grandes quanto a abóbada de alguma basílica italiana.


    Talvez ninguém explique. E talvez esse seja um acordo honesto: aceitar que nem tudo precisa ser entendido, algumas coisas apenas acontecem. E, quando acontecem, basta pedir outro café.

    quem explica? (27/12/2025)

  • inércia

    O aeroporto parecia um desses lugares onde o tempo entra em repouso. Simplesmente não passa. As pessoas sentadas, as malas alinhadas, o painel repetindo a mesma informação como um experimento que insiste no mesmo resultado.

    “Passageiros do voo 3267 com destino a Belo Horizonte informamos que estamos trabalhando em capacidade máxima, por isso convidamos os passageiros dos grupos 3 e 4 a despachar sua bagagem gratuitamente.”

    A mensagem se repetia. Mudava o destino, nunca a fala. Robótica. Em algum ponto ele se perguntou qual era o motivo de os voos estarem sempre em capacidade máxima, como se tudo estivesse permanentemente operando no limite do aceitável.

    Pensou que a física explicaria aquilo com facilidade. Corpos tendem a permanecer no estado em que se encontram quando nenhuma força externa atua sobre eles. Não era resignação propriamente dita. Era inércia.

    Sempre acreditou que a vida funcionava assim. Sistemas buscam o menor gasto de energia, o caminho mais econômico, o ponto onde o atrito diminui. Isso é biológico, físico e químico. O que exige força demais costuma estar fora do equilíbrio. O que dura encontra, cedo ou tarde, um estado estável. Não porque seja eterno, mas porque parou de lutar contra o próprio desenho.

    Havia algo irônico naquele lugar feito de malas coloridas, filas e café superfaturado. Ele se levantou. O voo seguia atrasado. Apalpou o bolso da jaqueta apenas para conferir se os documentos estavam ali. Metódico.

    Foi ali que lembrou da mulher que comprava ouro todo ano. Uma peça só, sempre. Dizia que o ouro era um metal estranho, resistente à oxidação, indiferente ao tempo, incapaz de enferrujar como o resto das coisas. Falava disso como quem fala de química básica, mas o que realmente explicava era outra coisa: valor não nasce do brilho, nasce da permanência. E permanência, inevitavelmente, valoriza.

    Ela dizia que a entropia governa tudo. Que a tendência natural é a desordem. Por isso, manter qualquer coisa exige trabalho. Manter uma rotina, um gesto, uma ideia, um caráter. Permanecer não é passivo. É uma escolha repetida contra o caos. Por isso é difícil.

    Ele pensou nas coisas que já não tentava mudar. Não por medo, nem por cansaço, mas por entendimento. Entender nunca é fácil.

    Como podemos entender a escolha alheia se falhamos miseravelmente em entender as nossas? Pensou novamente nos sistemas buscando o menor gasto energético e imaginou como seria viver assim. Talvez, se aplicássemos isso à vida, não existisse tanta crise de ansiedade, tanto empurrão desnecessário contra o que já pede repouso.

    Talvez viver fosse aceitar que nem tudo precisa ser acelerado, salvo ou corrigido. Algumas coisas apenas continuam. E, quando continuam sem esforço, talvez tenham encontrado o único lugar possível onde fazem sentido.

    inércia, 2025.

  • inventário

    ficaram
    os copos esquecidos na pia
    a xícara com a borda lascada
    o travesseiro sem forma
    a camiseta que eu nunca tive coragem de rasgar

    ficou
    o relógio quebrado segurando o tempo da partida
    o som da porta do fundo fechando quando você se foi
    a rua que nunca leva a lugar algum

    ficou
    uma música que não pede explicação
    mas que eu ainda te explicaria
    por que falava de nós

    o amor
    não ficou

    não ficou nem a dúvida
    nem a vontade de conferir
    se você também sentiu

    não ficou na casa
    não ficou no corpo
    não ficou na meia garrafa de vinho
    esquecida na geladeira

    as rotinas seguem funcionando sozinhas
    às vezes nem é falta
    é organização

    os ruídos da tua partida
    ficaram listados
    no inventário do que foi perdido

    as luzes ainda lembram
    do que foi
    e o que ficou
    é exatamente o suficiente
    para nunca mais voltar

    inventário, 2025.

  • minimalista

    são as pequenas coisas que me constroem
    coleciono detalhes sem perceber
    não é muito, obviamente, mas é daqui

    gosto do barulho da água fervendo
    como se algum dia eu tivesse aprendido a esperar
    acho que música ruim melhora no carro
    talvez porque o mundo ali dentro faz menos barulho que eu

    gosto dos passarinhos cantando quando acordo às cinco e quinze da manhã
    mesmo nos dias em que eu queria dormir a vida inteira

    o primeiro gole de vinho sempre amarra a boca
    gosto de cheiros doces
    a amburana tocada pelo sol
    guardando no calor alguma lembrança que perdi no caminho

    sou feita do miúdo
    do mínimo
    daquilo que quase passa batido
    do mesmo jeito que eu passo por tanta coisa sem saber direito o porquê

    são as pequenas coisas que me constroem
    porque o que é grande sempre escapa das minhas mãos
    e talvez eu só saiba viver assim
    recolhendo migalhas de mundo para não desaparecer de vez

    minimalista, 2025.

  • tatuapé

    Hoje cedo ela me avisou que eu estava fazendo tudo errado. De novo. Isso me irrita profundamente, porque ninguém deveria acertar tanto com essa voz de quem já cansou da nossa burrice.

    O que me incomoda não é o acerto em si, mas a confiança com que ela o carrega. Minha irmã fala como quem nunca errou na vida, como se estivesse entregando sentença e não opinião. Todos os meus amores passaram pelo crivo dela. Lembro de apresentar cada obsessão como quem tenta convencer um investidor no Shark Tank: ressalto os bons pontos, falo do gosto musical, descrevo a beleza com rigor quase científico.

    “Não vai dar certo.”
    É o que ela diz, sempre, com a calma de quem já viu o final do filme.

    E aí entra a teimosia. Ela destrói o próprio argumento com a arrogância. É nesse momento que eu perco a razão e passo a acreditar que ela está errada, só pra manter minha dignidade intacta. De repente, eu me vejo falando com a Suprema Corte instalada num apartamento antigo no coração do Tatuapé, onde ela julga vidas e amores sem nem levantar da cadeira.

    Lembro quando falei do meu último amor. Eu, completamente rendida, disse que as tatuagens dela eram lindas.

    “Se você chacoalhar uma árvore na Vila Mariana, caem trinta iguais e com menos problema do que essa louca aí.”

    Fiquei indignada. Como ela não conseguia enxergar o que eu via? Como não percebia o brilho, o riso, o desvio bonito do olhar? Como não entendia que, naquela árvore específica do interior, tinha caído uma que mexia comigo de um jeito diferente? Talvez porque ela conhece meus abismos melhor do que eu. Ela sabe exatamente onde eu caio, e com quem. E eu, teimosa, continuo acreditando que dessa vez o chão vai ser mais macio.

    Decidi que ia namorar num dia qualquer de um mês qualquer do ano passado. Minha irmã me ouviu, absorveu e reagiu como se eu tivesse acabado de declarar que estava partindo para uma missão em algum país em guerra que certamente seria citada nos livros de história depois como estatística de perda.

    Discordei como quem discorda de um alerta aleatório de saúde encontrado nos confins da internet sem nenhum respaldo científico.
    Talvez porque é mais fácil brigar com quem fica do que admitir o medo de escolher errado de novo.

    Errei. De novo.

    Às vezes fico tentando entender a ciência, o misticismo, a astrologia ou a simples sorte que ela usa para prever tão bem os desastres da minha vida. E mais ainda: como, depois de avisar, ela ainda encontra tempo para me consolar. De um jeito torto, obviamente. Mas presente. Às vezes penso que ela exagera nos alertas porque sabe que eu não sei cair devagar. Quando eu caio, eu desço até o fundo. E ela tenta evitar o estrago do jeito que consegue, mesmo que doa nos ouvidos. Continuo discordando.

    tatuapé, 2025.

  • acordeão

    teve janta com requinte torto
    e conversa que atravessou a noite
    o tempo voando feito pássaro perdido do bando

    e as mãos dela desfiavam pequenos exageros
    como quem costura silêncio pra não tremer

    o vinho ria da nossa cara
    porque virou ideia não cumprida
    e a taça daquela noite
    eu enchi com a existência torta do mundo
    essas cidades que colapsam por estradas que nunca seguem retas

    a perna chacoalhando um nervoso antigo
    desses que o corpo carrega sem saber por quê
    e cada frase dela chegava torta
    como se as ideias brigassem pra se fazer entender

    e havia um brilho discreto
    no ombro que a camisa não escondia
    não era luz
    mas parecia
    como se ela guardasse constelações
    num canto do corpo onde o mundo não alcança

    o beijo teve gosto de fruta desconhecida
    daquelas que a gente morde por engano
    e guarda o resto
    só pra ver se amadurece depois

    no dia seguinte
    tudo parecia dobrado
    feito acordeão velho
    na mão de músico cansado

    a cor do mundo era um rosa teimoso
    raspando no azul da parede
    um contraste de feira e poesia
    lembrando cordel sussurrado
    no fundo de um palco de melancolia

    pensei no beijo
    no quase
    no gosto que prometia pouco
    mas deixava vontade de tentar de novo

    porque tem fruta
    e tem gente
    que só adoça
    depois da segunda mordida

    acordeão, (07/12/2025)